As tecnologias do futuro permitirão abolir a morte e ressuscitar todas as pessoas que já viveram.
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Um relato alternativo

O que o senhor tem diante de si é um convite a olhar o limite do destino humano não como uma sentença definitiva, mas como uma tarefa prática — uma tarefa que exige inteligência e responsabilidade. Aqui, a esperança assume a forma de um plano concreto.

Para uma imersão mais completa na essência do conceito, recomenda-se começar ouvindo o podcast nº 1.

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«É preciso viver não para si e não para os outros, mas com todos e para todos.» — Nikolai Fiódorovitch Fiódorov

Este texto propõe um paradigma alternativo da existência humana. Segundo esta perspectiva, a morte não é um axioma imutável nem uma lei incontestável do ser. Ela se apresenta, antes, como um problema técnico complexo e estratificado. E, embora a sua solução ainda ultrapasse as capacidades tecnológicas atuais, continua sendo um problema que, em princípio, admite soluções de engenharia perfeitamente concretas.

Como fundamento intelectual e ético, propõe-se recorrer ao legado do cosmismo russo — uma corrente filosófica singular que concebe a razão humana como uma força ativa e transformadora do Universo.

Aqui, o cosmismo russo é apresentado não como uma doutrina filosófica abstrata, mas como uma espécie de documentação de projeto para o desenvolvimento civilizacional.

A ideia central deste projeto é um chamado à maior transição da história humana: passar da evolução darwiniana passiva, cega e cruel para uma evolução ativa, conscientemente guiada pela Razão. Este manifesto, que sintetiza as obras de Nikolai Fiódorovitch Fiódorov, Konstantin Eduárdovitch Tsiolkovski e Vladímir Ivánovitch Vernadski, expõe o plano conceitual de tal transição.

Seu duplo objetivo é o seguinte: em primeiro lugar, alcançar uma imortalidade condicional — uma vida ativa indefinidamente longa para todas as pessoas vivas; em segundo lugar, a restauração posterior e o retorno à vida de todas as gerações que já existiram, o que se postula como o mais alto imperativo ético da humanidade.

O cosmismo russo como documentação de projeto para o desenvolvimento civilizacional

Filosofia

Fiódorov colocou à humanidade uma pergunta fundamental — uma pergunta que antes dele ninguém ousara formular com tamanha radicalidade: é justo que os vivos desfrutem dos bens da civilização literalmente de pé sobre as cinzas de incontáveis gerações de antepassados que construíram essa civilização? É justo que bilhões de pessoas — pais e mães — tenham vivido vidas breves entre trabalho extenuante, guerras sangrentas e sofrimento, e tenham se dissipado no nada sem chegar a ver o mundo pelo qual, às vezes, até se sacrificaram?

  1. A primeira tarefa é tática: alcançar, por meio de biotecnologias, uma longevidade ilimitada, saúde absoluta e juventude perpétua para todos os vivos. Propõe-se compreender o envelhecimento do organismo como um programa genético-atávico que deve ser cancelado para a espécie humana.
  2. A segunda tarefa é estratégica e principal: o retorno posterior à vida, a recriação de todas as gerações desaparecidas. Fiódorov afirmava que a humanidade deveria dar um salto qualitativo em sua relação com a natureza: passar da contemplação passiva e da exploração predatória à sua regulação ativa.

O ser humano, como a mais alta manifestação da matéria racional, é obrigado a tornar-se seu governante. É preciso aprender a controlar o clima, prevenir terremotos, secas e outros desastres naturais. Numa perspectiva distante, controlar a matéria em nível atômico. O objetivo final desse domínio total das leis da natureza é adquirir a capacidade de «reunir o que foi disperso»: isto é, usando toda a informação disponível sobre o passado, recriar — a partir de átomos espalhados no espaço — os corpos e as personalidades de todos os seres humanos que um dia viveram.

Essa ideia, deslumbrante pela sua escala, exerceu uma influência colossal sobre a elite intelectual russa. Fiódor Dostoiévski viu nela uma resposta prática à sua dolorosa busca por harmonia universal e amor ativo. Lev Tolstói, apesar de seus desacordos filosóficos com Fiódorov, inclinava-se diante da pureza moral e da força de seu desígnio. O filósofo Vladímir Soloviov desenvolveu as ideias de Fiódorov em sua doutrina da Deus-humanidade como participação ativa do homem na transfiguração do mundo.

Mas, acima de tudo, essa filosofia encontrou uma encarnação direta e prática nas obras de Konstantin Eduárdovitch Tsiolkovski, de quem Fiódorov foi mentor por vários anos. Como Tsiolkovski reconheceria mais tarde: «Fiódorov substituiu para mim os professores universitários». O fundador da cosmonáutica via na conquista do espaço não apenas uma tarefa técnica, mas uma condição direta e necessária para realizar a «Obra Comum» fiodoroviana.

Foi precisamente por iniciativa de Fiódorov que o próprio Tsiolkovski respondeu à pergunta inevitável: «Onde acomodar os bilhões de ressuscitados?» Sua resposta foi simples e majestosa: «Em todo o Universo». A expansão cósmica não era, desde o começo, um sonho abstrato, mas uma necessidade ditada pelo mais alto dever moral para com os antepassados.

  

«Onde acomodar os bilhões de ressuscitados?». Sua resposta foi: «Em todo o Universo».

Psicologia

Antes de considerar os aspectos tecnológicos do projeto de ressurreição, é necessário analisar as barreiras psicológicas profundamente enraizadas que dificultam até mesmo a discussão da ideia de imortalidade.

A civilização humana está construída sobre um alicerce cultural que pode ser caracterizado como «o paradigma da mortalidade». Não é apenas o reconhecimento do fato biológico de que a vida é finita: é um sistema de defesas psicológicas extraordinariamente complexo e estratificado, desenvolvido ao longo de milênios para nos reconciliar com o horror existencial do nada.

Desde a primeira infância, o indivíduo é imerso em um ambiente cultural que, em todos os níveis — dos dogmas religiosos às obras de arte — inculca a ideia de que a morte é «natural», «inevitável» e até, em certo sentido, «necessária» para dar sentido à vida. As religiões oferecem conceitos de vida após a morte, amortecendo a tragédia da decomposição física. As escolas filosóficas ensinam a aceitação estoica do destino e a busca de sentido justamente na finitude da existência. A arte estetiza o apagar-se, transformando-o em objeto de catarse trágica.

Tudo isso, em conjunto, forma uma poderosíssima anestesia cultural que permite à consciência humana funcionar sem ser paralisada pela consciência permanente de sua condenação.

Ao mesmo tempo, observa-se uma contradição evidente entre a atitude declarada em nível cultural e o comportamento real das pessoas. Toda a indústria médica, todo o sistema de saúde, os trilhões movimentados pela biotecnologia, pela farmacêutica, pela indústria do bem-estar e da beleza: tudo isso demonstra, de modo irrefutável, que, em um nível profundo e instintivo, o ser humano trava uma luta desesperada e intransigente para prolongar a vida e adiar a morte.

No entanto, assim que se passa da luta tática por alguns anos a mais para a meta estratégica — a extensão radical da vida e a conquista da imortalidade biológica — ativa-se um mecanismo cultural defensivo que pode ser definido como «imortofobia».

A imortofobia é um medo irracional e uma rejeição agressiva — frequentemente sem argumentos — da própria ideia de imortalidade. Esse fenômeno se manifesta como um conjunto de objeções padrão e ritualizadas que, examinadas de perto, revelam-se logicamente insustentáveis.

Objeções típicas e sua análise

A objeção do «tédio». A afirmação de que a vida eterna seria insuportavelmente tediosa baseia-se em uma extrapolação equivocada da experiência limitada de uma vida finita para a eternidade. Ela não leva em conta a complexidade praticamente infinita do próprio Universo, os horizontes ilimitados do conhecimento, da arte e da autoexpressão, nem a capacidade potencial da personalidade de se desenvolver e se transformar. O tédio não é consequência de excesso de tempo, mas da falta de recursos e oportunidades disponíveis para o crescimento interior: para explorar, para experimentar o muito diferente e o novo.

  

O tédio não é consequência de excesso de tempo, mas da falta de recursos e oportunidades disponíveis

A objeção da «perda de sentido». A tese de que o valor da vida é determinado por sua brevidade é um exemplo clássico de distorção cognitiva conhecida como «psicologia das uvas verdes». O sentido da atividade não é definido por um prazo externo, mas por seu conteúdo interno: a criatividade, o conhecimento, o amor, a criação. A finitude da vida obriga a buscar sentido no «legado», um sucedâneo de imortalidade; enquanto uma vida ilimitada permitiria encontrar ainda mais sentido no próprio processo de ser, de mover-se e de desenvolver-se.

A objeção da «superpopulação». Este argumento é o mais pragmático, mas também o mais míope. É uma projeção das limitações atuais de recursos e território sobre a civilização do futuro. Um nível tecnológico capaz de controlar o envelhecimento implicará também a solução dos problemas de energia e de espaço vital. A expansão cósmica, como previa Tsiolkovski, é uma consequência inevitável e lógica do projeto de abolir a morte.

A essência dessas objeções não é a análise racional, mas a defesa inconsciente de uma imagem de mundo habitual e, por isso, psicologicamente confortável, no centro da qual está a morte. A atitude da maioria diante da ideia de imortalidade hoje se assemelha à atitude das pessoas do passado diante da abolição da escravidão, da erradicação da mortalidade infantil ou da vitória sobre a peste. Todas essas coisas foram, em seu tempo, consideradas «naturais», «agradáveis a Deus» e inevitáveis na condição humana.

No entanto, toda a história do progresso científico e técnico é a história de transformar, passo a passo, as «inevitabilidades» em tarefas de engenharia solucionáveis. E o primeiro passo — o mais importante — nesse caminho é psicológico: tomar consciência das possibilidades potenciais.

Resignar-se à morte não é um sinal de sabedoria, mas uma forma de impotência aprendida em escala civilizacional — algo que se pode e se deve superar.

O futuro

Uma forma de impotência aprendida em escala civilizacional

Para avaliar a magnitude das mudanças que vêm, usemos uma analogia. Imagine um caravanista do século XVI. Seu mundo é medido pela velocidade de um camelo. Sua realidade são meses de estrada, rotas poeirentas e perigos. Tente falar-lhe sobre a aviação de transporte militar. Sua explicação de uma construção de ferro com muitas toneladas soará como um conto de tapete voador. As palavras «aerodinâmica», «motor a jato», «combustível de aviação» serão som vazio. Ele não poderá compreender não porque seja tolo, mas porque, no seu sistema de conceitos, faltam as categorias básicas para entender. Entre a civilização dele e a nossa, há várias revoluções científicas fundamentais e mudanças de paradigma.

Nós, seres humanos do século XXI, estamos em uma posição absolutamente idêntica diante da realidade tecnológica que chegará dentro de alguns séculos.

O progresso tecnológico acelera de maneira exponencial. Biotecnologia, inteligência artificial, computação quântica, nanotecnologia: não são apenas ferramentas novas. São tecnologias que mudam as regras do jogo. Estamos à beira da singularidade tecnológica: um momento em que o desenvolvimento será tão veloz que se tornará inacessível à compreensão da mente humana da era pré-singularidade.

Por isso, quando na filosofia do cosmismo se discutem conceitos como «transferência intertemporal» ou o «montagem átomo por átomo» de um ser humano, deve-se entender que se trata de uma tentativa de descrever fenômenos do mundo pós-singularidade usando uma linguagem pré-singularidade extremamente limitada.

A impossibilidade de imaginar em detalhe o mecanismo de realização não é um argumento contra a própria possibilidade. Afirmar o contrário é uma demonstração de arrogância intelectual, ridicularizada repetidas vezes pela história.

A exponencialidade do progresso

Tendemos ao pensamento linear quando avaliamos o futuro. A intuição humana, formada em um mundo de mudanças relativamente lentas, extrapola possibilidades segundo um princípio aditivo (1, 2, 3, 4, 5...), enquanto o progresso científico e técnico se desenvolve conforme uma lei multiplicativa, exponencial (2, 4, 8, 16, 32, 64...). Essa diferença de modelos de previsão cria uma lacuna continuamente crescente entre a trajetória esperada e a real, tornando o futuro distante essencialmente inimaginável a partir do presente.

  

O futuro distante é inimaginável

Já hoje despontam no horizonte tecnologias que não são apenas melhorias de ferramentas existentes, mas mudanças fundamentais nas «regras do jogo»:

A inteligência artificial não é apenas uma calculadora mais rápida. O desenvolvimento de uma IA forte (Artificial General Intelligence) significa o surgimento de uma inteligência não humana capaz de se autoaprimorar em um ciclo de retroalimentação acelerada, o que levará a um salto cognitivo incomparável com qualquer coisa na história da evolução biológica.

A computação quântica não são simplesmente computadores mais potentes. Ela opera em um nível de realidade essencialmente distinto, usando efeitos de superposição e emaranhamento para resolver tarefas (por exemplo, em modelagem molecular ou criptografia) que são, em princípio, insolúveis para qualquer computador clássico, mesmo um do tamanho do universo.

A nanotecnologia em sua forma madura (montadores moleculares) não é mera miniaturização. É o controle programável da matéria em nível atômico, o que permitirá criar qualquer estrutura material com precisão atômica e, potencialmente, a um custo extremamente baixo. Em uma perspectiva muito distante, com essa tecnologia seria possível acondicionar planetas inteiros, e não apenas produzir alimentos ou construir bairros.

O desenvolvimento conjunto dessas direções — sua convergência que se reforça mutuamente — conduz a civilização à singularidade tecnológica e a uma economia de abundância.

Uma abordagem racional exige reconhecer nossas limitações cognitivas e admitir que a realidade futura será incomensuravelmente mais estranha e mais poderosa do que qualquer ficção contemporânea descreve.

Tecnologia

Hoje, a principal variante de solução para a tarefa de devolver à vida as gerações desaparecidas é concebida como uma reformulação da própria tarefa. Em vez de tentar reconstruir a estrutura extremamente complexa da personalidade a partir das informações extraídas do caos entrópico produzido pela desintegração do corpo, propõe-se preservar a informação sobre essa estrutura no instante anterior ao início de sua decomposição.

Na base está um mecanismo hipotético: um ato global de salvação, estendido no tempo, realizado por uma supercivilização futura composta, provavelmente, por nossos descendentes. Esse mecanismo pode ser descrito como um processo de transferência transcronológica.

Variantes de implementação do resgate

  1. Primeira variante: cópia informacional. No último instante antes da morte biológica do indivíduo, uma tecnologia do futuro realiza uma varredura instantânea e completa. Trata-se de um processo hipercomplexo em que toda a informação que constitui a pessoa — da macroestrutura do corpo à configuração exata das conexões neurais (o conectoma) e ao estado quântico de cada partícula elementar — é copiada e, de imediato, recriada átomo por átomo em outro ponto seguro do espaço-tempo, isto é, no futuro.
  2. Segunda variante: deslocamento físico. Implica o deslocamento físico do moribundo, no seu último instante terreno, para a reanimação do futuro através do espaço e do tempo. Para assegurar a consistência causal, nesse mesmo instante coloca-se no lugar do ser extraído um duplicado biológico: um simulacro do estado terminal. O simulacro é uma cópia material suficientemente semelhante, porém desprovida de consciência, que reproduz todos os parâmetros fisiológicos do original no momento de sua morte. Esse duplicado atravessa as etapas observáveis do morrer, constata-se sua morte e o corpo é submetido aos procedimentos rituais padrão.

Assim, para todos os observadores do passado, o tecido histórico permanece inalterado, e o ato de salvação passa completamente despercebido. A pessoa real, por sua vez, termina no ambiente tecnológico do futuro, onde seu organismo é reanimado, regenerado, rejuvenescido e, depois, reabilitado para se adaptar à nova realidade.

  

Transferência transcronológica

Fundamentos físicos

A aparente fantasia dessas ideias se baseia em representações intuitivas e cotidianas do tempo como um fluxo linear e absoluto. No entanto, a física moderna, desde a Teoria Geral da Relatividade de Einstein, já demonstrou há muito que o tempo é relativo e flui a velocidades diferentes. O contínuo espaço-tempo possui plasticidade e se curva dinamicamente sob a influência da massa e da velocidade.

O tempo não é único em todo o universo. Mais ainda: as equações da Teoria Geral da Relatividade admitem a existência dos chamados «buracos de minhoca», ou pontes de Einstein-Rosen: túneis que conectam regiões distantes do espaço-tempo. Tais estruturas podem unir não apenas pontos distintos do espaço, mas também momentos distintos do tempo, abrindo possibilidades teóricas de saltos para o passado e para o futuro.

Hoje já se vislumbram problemas potenciais para estabilizar tais pontes. Contudo, eles devem ser entendidos como desafios de engenharia de complexidade extrema para uma civilização futura, e não como proibições fundamentais impostas pelas leis da física.

Princípio da retroatividade

Essencial para compreender todo o conceito é o princípio da retroatividade. Se uma tecnologia que permite acesso ao passado é, em princípio, possível (ainda que o acesso seja apenas informacional e não físico), então não importa quando ela seja criada: daqui a mil anos ou daqui a um milhão.

A partir do momento de sua criação, ela abre aos seus operadores acesso a todo o contínuo histórico precedente. Para uma civilização que domina tais tecnologias, toda a história humana aparece como um objeto quadridimensional estático e concluído, a qualquer ponto do qual é possível conectar-se.

Consequentemente, o ato de salvação não é algo que ocorrerá no nosso futuro, mas algo que, do ponto de vista de um eixo temporal superior, já está sendo realizado — ou já foi realizado pela civilização que vier a criar tal tecnologia. Por sua própria natureza, sua ação se estende a todo o passado, incluindo o nosso presente.

Logística

A realização do projeto de restauração de todas as gerações desaparecidas coloca diante de seus executores uma tarefa colossal — não apenas tecnológica, mas também logística, ética e sócio-psicológica.

A questão é onde — e, sobretudo, como — acomodar bilhões de pessoas resgatadas, extraídas de épocas históricas, matrizes culturais e sistemas de crença muito distintos. Integrar diretamente todos os indivíduos, separados por milênios de desenvolvimento, em uma única sociedade do futuro não seria apenas inviável: seria um ato de violência psicológica de proporções enormes.

É difícil imaginar uma convivência harmoniosa, por exemplo, entre um legionário romano com suas ideias de escravidão e honra, um monge asceta medieval e um engenheiro soviético ateu dentro de uma mesma estrutura social. O choque de suas cosmovisões, normas éticas, barreiras linguísticas e até noções básicas de higiene e ciência levaria a conflitos insolúveis e a traumas pessoais profundíssimos.

O conceito de HyperMundo

A solução para esse problema é o conceito de HyperMundo. Não se trata de um mundo único e unificado, mas de um sistema multiversal projetado, complexo e em expansão constante, composto por múltiplas realidades interconectadas. Essas realidades podem ser planetas terraformados ou simulações de altíssimo realismo, fisicamente indistinguíveis da realidade.

O objetivo principal do HyperMundo é garantir uma adaptação suave, humana e construída sob medida para cada personalidade ressuscitada.

Na base desse sistema está o princípio da máxima correspondência psico-histórica. Segundo esse princípio, cada pessoa resgatada, no momento de seu «despertar» após a transferência desde o passado, chega inicialmente não ao mundo do futuro distante, mas a uma realidade «de partida» especialmente recriada. Essa realidade, muitas vezes, corresponderá com precisão suficiente às suas representações culturais, religiosas e pessoais mais profundas sobre a vida após a morte ou a existência póstuma.

Na prática, isso significa:

Para a consciência do ressuscitado, a passagem da vida para a «pós-vida» deve ocorrer sem rupturas nem abalos, levando em conta suas expectativas. Esse ato é uma manifestação do mais alto humanismo, porque coloca em primeiro plano o conforto psicológico e a integridade da personalidade — e não a imposição violenta de uma verdade alheia e incompreensível.

O mundo de Dune

Processo de adaptação

Na realidade «de partida» inicia-se um processo de adaptação gradual e delicada. Um papel-chave, presumivelmente, será desempenhado pelos «guias» ou mentores: em regra, ressuscitados anteriores que já passaram por essa etapa e pertencem a uma época histórico-cultural semelhante ou contígua. Eles são capazes de estabelecer com o recém-chegado um vínculo de confiança.

O processo de aprendizagem não é uma imposição didática de conhecimento. Ele se constrói segundo o método socrático: por meio de diálogos, pela introdução paulatina na realidade «de partida» de pequenas anomalias logicamente inexplicáveis, os guias conduzem suavemente a pessoa à reflexão independente e à formulação de perguntas sobre a natureza do novo mundo. Aos poucos, revela-se a verdade: o que lhe aconteceu, onde ela está e que possibilidades ilimitadas de viagem, desenvolvimento e conhecimento se abrem diante dela.

À medida que a lucidez e a prontidão psicológica crescem, o indivíduo obtém o direito de livre deslocamento entre os mundos do HyperMundo. Esse sistema não é um conjunto caótico de mundos, mas um multiverso estruturado: existem reconstruções históricas de épocas inteiras, mundos dedicados a determinados tipos de arte ou ciência, reservas naturais em escala cósmica para a contemplação solitária e muito mais. O direito de viajar livremente significa a culminação da adaptação e a aquisição do status de cidadão pleno de uma nova civilização unificada.

Assim, o HyperMundo pode ser descrito metaforicamente como «purgatório» e «universidade» ao mesmo tempo. «Purgatório», porque permite à personalidade limpar-se de traumas, preconceitos e limitações de sua vida passada e finita. «Universidade», porque oferece recursos infinitos para aprender, aperfeiçoar-se e realizar-se criativamente.

Não é apenas uma solução logística, mas o único modo eticamente aceitável de integrar toda a riqueza colossal da experiência humana em uma única civilização futura e harmônica, respeitando e preservando o caminho singular de cada pessoa.

Objetivos

Um objetivo intermediário do projeto descrito no âmbito do cosmismo é a criação de uma sociedade e de um ambiente de vida na Terra que podem ser caracterizados como um «Paraíso feito pelo homem».

É importante distinguir esse conceito das representações religioso-mitológicas tradicionais do paraíso. Nas doutrinas clássicas, o paraíso é um estado póstumo estático de bem-aventurança eterna, uma recompensa por uma vida justa, caracterizada pela cessação de toda luta ativa.

Em contraste, a ideia de um Paraíso feito pelo homem é dinâmica e ativa. Não é um lugar de ócio perpétuo (que inevitavelmente levaria à estagnação e à degradação da personalidade), mas uma sociedade cuidadosamente projetada, cuja estrutura inteira está orientada para desdobrar ao máximo o potencial criativo, intelectual e espiritual de cada indivíduo.

É necessário um ambiente positivo que elimine as limitações básicas impostas ao ser humano pela evolução biológica cega e por uma história cheia de privações e exploração. Para isso, será necessária a unidade da humanidade: uma globalização de novo tipo baseada na responsabilidade planetária, na cooperação pacífica entre Estados e povos, e em uma ética de fraternidade e parentesco universal.

Economia de abundância

A base econômica de uma sociedade planetária assim é uma economia de abundância, ou economia pós-escassez. Sua realização já se aproxima por meio da convergência entre inteligência artificial e robótica. No futuro, será intensificada por dois avanços tecnológicos promissores:

 

Economia de abundância

Muito antes de nos aproximarmos de tais níveis tecnológicos, os conceitos econômicos — escassez, propriedade de recursos, valor — perdem o sentido. A luta por recursos, que está na base da esmagadora maioria das guerras, conflitos e desigualdades sociais na história humana, provavelmente desaparecerá por completo como fenômeno.

Perfeição psicofísica

A superestrutura sobre essa base econômica é a perfeição psicofísica dos indivíduos. As tecnologias do futuro não apenas manterão uma juventude biológica eterna e uma saúde absoluta, como também permitirão o controle consciente do estado psicoemocional.

No nível físico, isso provavelmente será implementado pelo trabalho constante de nanorrobôs médicos que corrigem, em tempo real, qualquer dano no DNA e defeitos celulares.

No nível psicológico, não se trata de uma «felicidade» forçada, mas de criar uma base biológica para uma psique estável e harmônica. Isso implica a regulação precisa do equilíbrio neuroquímico do cérebro e a eliminação de instintos incorporados pela evolução, mas já desnecessários: agressão irracional, territorialidade, xenofobia e medos existenciais.

Será um mundo sem depressões clínicas, sem ataques de pânico, sem ira incontrolável: um mundo de alta energia vital, clareza cognitiva e alegria de existir como pano de fundo natural de qualquer atividade.

Livre da luta humilhante pela sobrevivência biológica, o ser humano poderá dedicar-se ao que desejar, inclusive às formas mais elevadas de atividade: o conhecimento, a criação de novas formas de arte hoje inimagináveis, a exploração e colonização do espaço, o design de mundos e seu governo e, o mais importante, o aprendizado e o aperfeiçoamento pessoal. A vida, de uma cadeia de sofrimentos e breves respiros, transformar-se-á em um ato de criação, conhecimento e outras alegrias humanas.

Se alguém no HyperMundo tiver vontade de passar um tempo em mundos especiais — seja uma semana, um mês ou décadas — não há motivo para preocupação. Serão criadas, em abundância, reservas diversas para todos os interessados, incluindo zonas com regras particulares às quais só se poderá acessar por desejo pessoal e com compreensão clara de todas as sutilezas, consequências e riscos individuais.
Para qual dos mundos o senhor iria primeiro? E depois — para onde? Quem sabe: talvez, de fato, a cada um seja dado segundo sua fé e segundo sua esperança.— Aquilo que se deseja, ao menos, convém imaginar de antemão, ainda que mentalmente; e, talvez, com a maior clareza e algum grau de detalhe.

Expansão cósmica

Um Paraíso feito pelo homem não pode permanecer por muito tempo limitado a um único planeta, a Terra: as leis da astrofísica são implacáveis. Dentro de cerca de cinco bilhões de anos, o Sol entrará na fase de gigante vermelha e sua fotosfera em expansão engolirá e abrasará a Terra. Existem também outras ameaças cósmicas mais próximas: desde o impacto de grandes asteroides até explosões próximas de supernovas.

Por isso, a missão suprema e o imperativo estratégico de uma humanidade que tenha alcançado a imortalidade tornam-se a expansão cósmica. Não é um anseio romântico pelas estrelas, mas uma condição absolutamente necessária para a existência garantida e condicionalmente eterna da civilização.

O processo de dispersão pela galáxia, a terraformação de planetas e a criação de múltiplos ambientes artificiais de vida é o único seguro confiável contra catástrofes locais. Esse processo pode ser visto como exportar vida e razão ao Universo, a difusão deliberada de negentropia (sistemas ordenados e complexos) em um cosmos submetido, em grande medida, às leis cegas da entropia. Em seu limite, o cosmismo russo busca dar razão e semear o bem à escala de todo o universo.

Dicotomia

A história demonstrou repetidas vezes que qualquer ferramenta tecnológica de grande escala possui uma dualidade fundamental. A energia nuclear pode iluminar e aquecer cidades — ou incinerá-las. A internet pode servir como meio de iluminação global e união — ou como instrumento de controle total e desinformação.

As tecnologias do imortalismo representam o ápice dessa dualidade, porque as apostas aqui chegam ao limite: não se trata apenas de vida e morte, mas de uma existência eterna em harmonia — ou em um sofrimento inimaginável.

O potencial da própria tecnologia de ressurreição tem um lado sombrio e aterrador. A mesma base tecnológica capaz de nos levar ao Paraíso pode, com ainda mais facilidade, ser usada para criar um Inferno tecnológico absoluto, hermético e eterno.

Pode-se imaginar um mundo em que a morte biológica foi eliminada por completo, mas em que a vida de todos se tornou uma tortura kafkiana interminável. Nas mãos de um regime totalitário ou de uma superinteligência artificial hostil, esse poder se transforma em um instrumento definitivo de dominação. O ditador do futuro poderia não apenas matar seu inimigo, mas submetê-lo a um ciclo infinito de tormento, execuções e ressurreições forçadas.

Em tal mundo, os vivos realmente invejariam os mortos — e, no entanto, já não haveria mortos.

A assimetria da criação

O aspecto mais importante dessa dicotomia é a assimetria da criação. Criar um Inferno tecnológico é incomparavelmente mais fácil do que criar um Paraíso.

Para construir o Inferno basta poder absoluto e crueldade primitiva. O Inferno é um sistema de baixa complexidade, baseado na simplificação, na supressão e no controle total.

O Paraíso feito pelo homem, ao contrário, é um sistema supercomplexo, em equilíbrio dinâmico, que pressupõe livre-arbítrio, diversidade infinita de bilhões de personalidades únicas e uma combinação harmônica de seus interesses e contradições — desiguais, porém igualmente vastos. Do ponto de vista da teoria de sistemas, criar e sustentar uma configuração tão altamente organizada e negentrópica exige incomparavelmente mais sabedoria, empatia e recursos computacionais do que erguer uma tirania primitiva.

Para o Inferno, basta a vontade de um único déspota. Para o Paraíso, é necessário consenso e o mais alto grau de desenvolvimento de toda a sociedade.

Não compreender o vínculo genético entre fascismo e capitalismo não é apenas desconhecer a história do século passado, mas também ser incapaz de entender quem derrotou Hitler — e por quê.

A religião suprema do fascismo é o anticomunismo. Basta ver a foice e o martelo sobre fundo vermelho para que certa escória transnacional e corporativa, ainda hoje, estremeça e se contorça.

Por isso mesmo, silenciar sobre essas perspectivas e suas possíveis consequências é irresponsável. O desenvolvimento de tecnologias-chave — inteligência artificial, nanotecnologia, neurointerfaces — já avança a toda velocidade, impulsionado por interesses militares, comerciais e médicos. A humanidade caminha para esse poder quase divino independentemente de estar ou não eticamente preparada para ele.

Se, no momento de alcançar essas tecnologias, a civilização ainda estiver corroída pelo ódio, pela avareza, pelo nacionalismo e pela desconfiança, com uma probabilidade próxima de cem por cento escolherá o caminho de menor resistência: o caminho rumo à construção de uma ou outra forma de Inferno tecnológico.

Nesse contexto, a filosofia do cosmismo russo coloca diante da humanidade a escolha principal e, talvez, a última de sua história. Não é apenas uma escolha entre sistemas políticos ou ideologias. É a escolha entre duas eternidades: ou a humanidade se une para realizar a «Obra Comum» de Fiódorov e criar conscientemente um Paraíso comum, ou sua desunião atual a levará a um Inferno comum e inevitável, do qual talvez já não haja saída.

Conclusão

A civilização moderna encontra-se em um estado de profunda crise sistêmica. Ela se manifesta não apenas na fragmentação geopolítica, no recrudescimento da competição por recursos e nas crescentes ameaças ecológicas, mas também em um vazio existencial, uma crise de sentido.

Os antigos sistemas ideológicos e religiosos perderam, em grande medida, sua capacidade de coesão, e os novos oferecidos pela sociedade de consumo não têm gravidade suficiente para mobilizar o potencial criador da humanidade. Nossa civilização, que já possui um poder tecnológico considerável, carece de uma meta global à altura desse poder, o que gera uma perigosa incerteza e canaliza uma energia colossal para a hostilidade mútua. Em vez dos «ismos» esgotados, nossa nova religião, filosofia e ideologia deve ser o futuro.

Nesse contexto histórico, a filosofia do cosmismo russo oferece um paradigma capaz de tirar a humanidade do beco sem saída civilizacional. Ela fornece essa «estrela guia»: uma ideia grande, supranacional e abrangente, potencialmente capaz de unir de verdade todas as pessoas, independentemente de raça, nacionalidade ou confissão.

O projeto de alcançar a imortalidade e, depois, ressuscitar todos os antepassados é único porque, em sua essência, é não competitivo. Ele define ontologicamente o único inimigo autêntico de toda a humanidade: não outra nação nem outra ideologia, mas a Morte, o caos e a entropia como forças fundamentais de desintegração — talvez expressas outrora na imagem bíblica da «besta do abismo». Diante de um inimigo assim, todos os conflitos internos humanos se tornam um absurdo trágico e um desperdício contraproducente de recursos preciosos.

Nosso caminho comum: através da superação da morte e da ressurreição universal, rumo à espiritualização do mundo.

Prioridades práticas

O assassino número um de todos os tempos não é Hitler nem a peste medieval, mas o envelhecimento do organismo. Por isso, neste século, a uma humanidade que amadurece convém começar a ordenar suas prioridades de maneira mais racional.

A esmagadora maioria das mortes hoje ocorre por causas naturais, não por violência ou acidentes. A maioria das doenças mortais é dependente da idade: começando pelas cardiovasculares, que lideram as estatísticas de mortalidade, e seguindo a lista.

Sob uma perspectiva científica, o início deste século testemunhou avanços práticos significativos na compreensão dos mecanismos e das causas do envelhecimento. Já foram delineadas tecnologias que, potencialmente, solucionam partes da problemática geral. Informações abundantes sobre o tema podem ser encontradas em fontes abertas — Open Longevity nos trabalhos de Aubrey de Grey e de outros.

O papel da Rússia e a cooperação global

A Rússia, como país em cujo ambiente intelectual nasceu a filosofia do cosmismo russo, possui um legado histórico e um arquétipo únicos. Seu papel aqui não é impor sua vontade, mas oferecer ao mundo esse caminho como base de uma nova agenda global, também sob o guarda-chuva dos BRICS e da OCS.

É uma proposta de transição do paradigma da competição e confrontação global — que conduz à destruição e ao esgotamento mútuo — para o paradigma da cooperação global e co-criação: a união dos potenciais científicos, industriais e culturais do planeta, entre outras coisas, para realizar a «Obra Comum».

A força transformadora das ideias

As ideias expostas neste projeto possuem uma força transformadora. O processo de compreendê-las — analisá-las cientificamente, discuti-las filosoficamente e criticá-las — não é um exercício intelectual passivo, mas uma forma direta de participar na construção do futuro.

Este é precisamente um dos aspectos do devir da noosfera, prevista por Vernadsky — o momento em que o pensamento científico coletivo começa a moldar deliberadamente a imagem da realidade desejada, que então se concretiza no mundo material por meio da atividade prática.

A visão final

A visão final deste projeto é a construção de um futuro em que a morte, as doenças, o sofrimento e o esquecimento tenham sido abolidos de modo definitivo. Um futuro em que a cada ser humano, a cada personalidade única, seja dada a oportunidade não apenas de continuar seu caminho, mas de dispor da eternidade e do Cosmos para um conhecimento sem fim, a co-criação, o desenvolvimento e, certamente, algo mais.

Este é o verdadeiro cumprimento do fim da existência da razão: o triunfo completo da vida consciente e ordenada sobre o poder cego e indiferente do Universo.

HyperMundo: todos os caminhos conduzem ao melhor...